Revisitando clássicos
novembro 16, 2012“Ela parou de se preocupar e resolveu esperar calmamente para ver o que o futuro lhe reservava”, assim, na página 14 do livro O Mágico de Oz, a gente para e, calmamente, analisa o presente e vê que não tem o que fazer. Resta apenas esperar o futuro com todas as vírgulas pertinentes para a construção perfeita de um roteiro composto por espantalhos, homens de lata e leões que miam, assim como Lorenzzo, meu bichano, que corre para perto com qualquer barulho mais estridente.
Quando criança a gente encara a magia como uma aliada. O faz de conta não faz sofrer. O faz de conta nos ajuda a crescer, amenizando possíveis dores, aceitando despedidas com desculpas esfarrapadas. Lembro-me que quando eu tinha sete anos o meu padrinho faleceu e o choque foi anulado quando me foi dito que ele partia, mas naquele mesmo momento muitos estavam nascendo. Verdade! Quem nasceu naquele dia hoje tem 23 anos. Já eu não tenho mais o meu padrinho, nem a inocência para aceitar com praticidade idas e vindas indesejadas.
Mas voltando ao Mágico de Oz, o dilema travado entre o coração e o cérebro, a razão e a emoção, por hora, cansa e faz ter vontade de pular para a estória ao lado. Talvez João e Maria, desde que a gente deixe para depois qualquer análise aprofundada. Entre as páginas desse outro clássico, doces e travessuras apresentam um Halloween fora de época, com direito até a bruxa. Doces e travessuras. O leão da estória anterior não entraria nessa daqui. Bruxas dão medo e ele era covarde, afinal, não tinha coração.
Deixando a covardia de lado, eu também acreditava até então que o meu coração só servia para bombear o sangue para o corpo, além de ser figura presente nas avaliações cardíacas e protagonista da minha hipertensão. Seu danado! Ele também acelera mais rápido às vezes, e não me refiro a possíveis ameaças de assalto. Acelera à medida que a boca se aproxima das orelhas e o branco dos meus dentes fica visível há metros de distância. Digamos que o inverso do que o Homem de Lata diz em alguma página do livro: “A maior perda que tive, foi a perda do meu coração. Enquanto eu amava, era o homem mais feliz da terra; mas ninguém pode amar sem coração". Pois ta correto!
O mundo rodou e agora pergunto: cadê o óleo Singer? Vou precisar de manutenção para não enferrujar. Por mais que acelere - o coração - e faça chegar a 16 por 10 no teciômetro da farmácia mais próxima, o sorriso largo não acompanha esses números todo dia, toda hora, por qualquer coisa.
Em terras tupiniquins, na mais tosca adaptação, o clássico se transforma facilmente em “O mágico uó”, o Leão tende a ir para a segunda divisão, o Espantalho virou pamonha e o Homem de Ferro se transformou em uma bela escultura na Casa Cor. Contudo, o discurso do autor não dá para mudar e a coitada da Dorothy é quem sofre com a tabacudice alheia: “Mas sua maior tristeza, era não poder encontrar alguém para amar em troca, já que todos os homens eram idiotas e feios demais para formar um par com uma princesa tão bela e inteligente". Véi, na boa, a casa caiu.
Fim.


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